Depoimento de Tânia Magali Silva
06 de Maio de 2005

 

“Ser mãe, a mais bela e grandiosa experiência de minha vida...”

“Em quinze de fevereiro de 2002, tomou-se concreto um sonho, que há algum tempo, morava em meu peito.

Por volta das 2:30h da madrugada, tive os primeiros sinais. Já internada, numa tentativa de segurar um pouco mais o bebê, percebi que ele não esperaria mais, pois no rompimento da bolsa, uma semana antes, todo o líquido escorrera, deixando-o sem condições de permanecer no útero. Meu bebê estava chegando. Levada às pressas para a sala de parto, lembro-me bem do alerta que recebi:

"-Mãe, as chances são poucas..."

Além de prematuridade extrema, havia também um prolapso de cordão. Seria feita uma cirurgia de emergência. O Dr. Antônio, parecia não ter esperança de sucesso, porém, o coraçãozinho do bebê estava batendo. Apeguei-me a isto e disse ao médico que: “-Eles seriam muito auxiliados” e tentei assim dizer, a mim mesma, que tudo daria certo...

Naquele momento, também recebi ajuda. No papel de uma mãe, uma enfermeira aproximou-se e carinhosamente juntou seu rosto ao meu transmitindo-me forças. Sou grata à enfermeira Jaci Fátima do Centro Obstétrico pelo gesto que confortou-me fazendo com que não me sentisse sozinha naquele momento.

Meu bebê chegou às 3:25h, e como já era esperado, não ouvi seu chorinho, mas observei que fora levado para a UTI. Parecia que minhas emoções também estavam anestesiadas no momento quando o Dr. Antônio, antes de ir embora, passou na sala de recuperação e disse que meu filhinho estava respirando e dando "pulos" na UTI. Aí sim as lágrimas rolaram e eu agradeci muito a Deus pois minhas esperanças se renovavam.

Sem conseguir dormir, apesar dos medicamentos, aguardei ansiosa a oportunidade de estar com ele. A emoção foi muito forte, ver meu bebê amado, tão pequeno e frágil dentro da isolete, entubado e lutando tanto para viver. Mexeu demais comigo. Por muito tempo chorei, pois não sabia como seria sua evolução e a idéia de perdê-lo já era insuportável.

Cada dia tornava-se uma conquista. Passei a comemorar cada ml (mililitro) de leite aumentado, cada grama adquirida, como também sofri vendo o desconforto com os aparelhos para respiração e com as ameaças das infecções. Os médicos precisavam ser claros e sempre alertavam que apesar das boas evoluções, tratava-se de um bebê prematuro e o quadro do dia seguinte costuma ser imprevisível.

Desta forma, passei a viver entre a insegurança e a esperança, meu emocional oscilando constantemente: num dia super feliz, no outro arrasada, porém buscando forças do "alto", pois meu filho precisava de toda energia positiva que eu pudesse lhe transmitir. Apesar de muitas vezes fragilizada, em cada toque através da isolete, eu o dizia o quanto o amava e que ele veio para ficar, e que contasse sempre comigo.

Palavras de consolo e incentivo não me faltaram, além da família, havia sempre uma auxiliar ou uma mãe relatando uma experiência, lembrando-me que a fé deveria permanecer inabalável, por mais difícil que parecia aquela situação.

Desde o início fui convidada a ser uma “Mãe Canguru”. Foi-me explicado que poderia conversar, tocar e cantar e isto diariamente eu fazia. Com 20 dias de nascido, meu pequeno Gabriel já estava mais resistente e foi então que pela primeira vez Gabriel foi colocado em “Posição Canguru”. Ao lado da incubadora, recebi meu bebê nos braços pela primeira vez. Sua pele encostada a minha, seu coraçãozinho batendo, sua respiração, era como se ele estivesse nascido naquele instante. Este contato direto com meu filhinho foi o momento mais lindo que já vivi. Não vou e nem quero esquecer nunca.

Melhor informada sobre o “Programa Mãe Canguru”, descobri que faria o papel de uma incubadora e além do calor passaria tranqüilidade, pois ele se sentiria novamente em "casa" ao ouvir os sons de meus órgãos e de minha voz, e desta forma, se desenvolveria mais rápido. Desde então, a hora do "Canguru" passou a ser a hora mais esperada e feliz do dia para mim. Ambos ganhamos numa troca de amor e tranqüilidade.

Hoje, meu "canguruzinho" está mais forte, tem progredido muito, embora ainda com alguns obstáculos devido a prematuridade. Gabriel cresce saudável, comunicativo, cheio de graça e com um rostinho que encanta a todos. Ao vê-lo brincando e se desenvolvendo tão bem, reforço ainda mais a certeza de que com amor, dedicação e fé em Deus nos tornamos fortes e capazes de superar as mais difíceis barreiras.

Passado três anos, ainda me emociona as lembranças daqueles momentos onde dor e alegria dividia o espaço em meu peito. Um menino lindo! Meu maior sonho realizado!

Num largo sorriso, Gabriel me diz: “Mamãe eu te amo! Pergunta-me: Você está feliz?” E como não podia ser diferente respondo: “Sim, muito, muito, muito feliz!”.

Algum dia contarei esta história ao Gabriel. Falarei também da sorte que tivemos ao encontrar muitos profissionais que exercem com amor a profissão que abraçaram.

A toda equipe do Hospital Maternidade Interlagos, minha eterna consideração”.

TÂNIA MAGALI

 

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