Periferia se espelha em famosos
Camille Vitória está entre os favoritos na zona sul

 

No extremo sul da periferia paulistana, a Maternidade Interlagos fez uma pesquisa para descobrir os nomes preferidos pelas mães que dão à luz nesse hospital público. Um dos campeões foi Camille Vitória. Nomes compostos conferem mais glamour, e as mães ficam mais satisfeitas. 'Também remetem a personagens importantes da história, como o imperador romano Marco Antônio e a rainha da França Maria Antonieta', diz José Luiz Fiorin, professor de lingüística da Universidade de São Paulo.

Camille Vitória é o nome da filha da ex-dançarina e apresentadora Carla Perez com o cantor Xandy. A menina nasceu há quatro anos. Desde então, saem muitas Camille Vitórias da Maternidade Interlagos.

Nomes simples, como João e Maria, que estão na lista dos mais concorridos do Estado, pelo levantamento do Certifixe, não fazem sucesso em todos os cantos da cidade.

A paraibana Cilisleide Saldanha, de 27 anos, batizou sua filha, há dois meses, de Camille Vitória. 'Camille é um nome meio francês, muito chique', explica a doméstica Cilisleide. 'Já o nome de Vitória vem do fato de ela ter nascido muito saudável.' A mãe teve sangramento no quarto mês de gestação e correu risco de perder o bebê. Casada há oito anos, Cilisleide engravidou só depois de comprar a casa própria no Grajaú, zona sul da capital.
 

Camille Vitória

Fonte:
Estado de São Paulo publicado em 22/10/06. http://txt.estado.com.br/editorias/2006/10/22/cid-1.93.3.20061022.28.1.xml?
 

Nomes simples voltam a ganhar força
Maria, Ana, João. Ainda preferidos

Nomes simples e fáceis de serem pronunciados seguem na lista dos preferidos pelos pais na hora de decidir como seus filhos vão se chamar. No ranking dos campeões estão Maria, Ana, João, Gabriel e Pedro, personagens bíblicos. O levantamento foi realizado em 19 cartórios de cidades do interior de São Paulo pela Certifixe, empresa virtual de orientação à aquisição de registros civis.

’Passou a onda dos nomes complicados, cheios de estrangeirismos, e os registros mais simples ganharam força de novo’, diz a professora Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick, autora do livro Toponímia e Antroponímia no Brasil, Coletânea e Estudos.

Os três primeiros colocados do ranking - Maria, Ana e João - fazem parte de um grupo de nomes tradicionais, que nunca somem dos registros dos cartórios, mas já caíram de posição em outras décadas. Nos anos 90, Maria não estava entre os 10 mais. Agora, os campeões recuperam posições. João, que estava em 7º na década passada, aparece em 3º.

No dia 9, a aeroviária paulistana Tânia Brunhera Kowalski deu à luz no Hospital Samaritano, em Higienópolis, zona oeste de São Paulo, um menino, que batizou de João Victor. ’É um nome bonito e muito tradicional, mas a escolha também foi uma forma de homenagear meu avô, que nasceu em 1880 e nem cheguei a conhecer’, diz.

Até os anos 60, todas as crianças batizadas pela Igreja Católica geralmente recebiam um nome santo, para trazer saúde e boa sorte aos pequenos. As meninas eram chamadas de Ana ou Maria e os meninos, de José, João ou Pedro. Com o tempo, os brasileiros foram deixando de lado o costume, mas não o abandonaram definitivamente. No dia 11, nasceu Ana Luiza, no Hospital Santa Catarina. ’Era muito importante tanto para mim como para meu marido que nosso filho tivesse o nome de um santo’, afirma a mãe, Kátia Esperança Medeiros, de 37 anos. O segundo nome foi escolhido porque os pais gostam muito da música Luiza, de Tom Jobim. ’É um nome forte e doce ao mesmo tempo’, diz Kátia.

A maioria dos brasileiros gosta de nomes compostos. Para a professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Flávia de Mattos Motta, a junção de nomes é uma forma de aliar o tradicional ao moderno. Muitas vezes, os pais querem homenagear um avô ou tio, mas preferem não usar um nome antigo. ’O nome composto é uma saída moderna.’

Há nomes que saíram de uso. É o caso dos portugueses Sebastião, Manoel Geraldo e Benedita, comuns em 1946. ’Benedita é um nome lindo. Significa aquela que é abençoada, mas as pessoas simplesmente o deixaram de lado’, explica Maria Vicentina. ’O brasileiro não tem o hábito de optar de acordo com o significado, mas pelas referências que foram atribuídas ao nome pela sociedade.’

Muitos pais escolhem o nome dos filhos por causa de uma atriz famosa, de um personagem de filme e até mesmo de um astro do rock. É o caso do cantor americano Michael Jackson, por exemplo. Ídolo de muitos brasileiros, nos cartórios ele é freqüentemente homenageado. ’Os pais fazem questão de registrar o nome do jeito que se pronuncia para ninguém errar na hora de falar’, diz Lídia Almeida Barros, professora de Ciências do Léxico da Universidade Estadual Paulista de São José do Rio Preto. Isso quer dizer que hoje há muita criança registrada com o nome Maikol.

’Em Portugal e na França, isso não seria possível’, diz Lídia. Nesses países, os cartórios têm uma relação de nomes permitidos. Não aceitam grafias erradas nem substantivos comuns, como ’lua’ e ’sol’. No Brasil, nos anos 70, muitos bebês ganharam nomes hippies como Ceumar (céu com mar).
 


Diversidade

’Como o País recebeu diversas levas de imigrantes, também tem um acervo maior de nomes próprios se comparado com os países anglo-saxões, por exemplo’, diz José Luiz Fiorin, professor de Lingüística da Universidade de São Paulo. Na capital paulista, o ranking dos nomes varia de acordo com o local. No Colégio Dante Alighieri, por exemplo, onde há muitos filhos de italianos, a preferência muda. Na pré-escola, nos Jardins, predominam Beatriz, Tiago, Luca, Isabela e Sophia. Perto dali, na Maternidade Pro Matre, na Bela Vista, o nome Luca perde a grafia italiana e vira Lucas, a sensação do berçário. Na semana passada, nasceram ali seis Lucas, todos lindos e fortes. De lá também saem muitos bebês Gabriel, Pedro, João e Guilherme, além de Isabela, Giovana, Mariana, Sofia e Luísa.

Nas luxuosas maternidades São Luiz e Albert Einstein, nascem muitos Enzos, influência do filho da atriz Claudia Raia. ’É o efeito da teoria mágica dos nomes, que ganham sentidos novos com o passar do tempo’, explica Maria Vicentina.


Estigmas acompanham nomes
Como Patrícia, que virou dondoca, e Maurício, arrumadinho

Muitos nomes deixam de ser escolhidos pelos pais porque adquirem outros significados com o passar dos anos. Patrícia, por exemplo, comum entre os bebês nascidos na década de 70, tornou-se raro. Patricinha virou sinônimo de garotas que só se preocupam com futilidades. O mesmo destino teve o nome Maurício. Deixou de aparecer nos registros com tanta freqüência, pois passou a identificar um tipo de jovem muito arrumadinho, que usa camiseta branca sob camisa social.

Há nomes que ganham tom constrangedor. Quando Chico Buarque escreveu a música Geni e o Zepelim, na década de 70, acabou alterando o significado de Geni. Num dos trechos, o compositor repete ’Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni’. Infeliz com o nome, Geny Monice Fujita preferia se chamar Margarete ou Elisabete. Em 1978, quando ela tinha 45 anos, a rejeição foi ainda maior com o lançamento da música.

Em 1995, o Ministério da Saúde lançou campanha de prevenção à Aids em que o personagem principal chamava seu órgão sexual de Bráulio. O comercial ficou popular e revoltou alguns Bráulios, que pediram até indenização na Justiça.

Mas há quem tenha levado a história com humor. O empresário Bráulio Weiner, de 31 anos, lucrou com a fama. Conta que aproveitava as brincadeiras para conversar e vender mais. ’Tentei transformar a situação em algo favorável.’

Fonte: Estado de São Paulo publicado em 22/10/06.

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