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Pesquisas mostram
que utilização de Penicilina, Lincomicina, Tetraciclina,
Cloranfenical e Novobiocina, na ração de frangos, pode causar
danos à saúde humana.
Por Aldem
Bourscheit
Brasília, DF
– Com uma produção de 9,3 milhões de toneladas de carne de
frango no ano passado, o Brasil é hoje o maior exportador e o
segundo maior produtor dessas aves no planeta, logo atrás da
China. A maioria da carne, cerca de 6,5 milhões de toneladas,
acaba na mesa dos brasileiros.
Essa trincheira no
mercado global se deve ao aumento contínuo no número de aves nas
duas últimas décadas e à adoção de um modelo produtivo voltado à
redução de custos. O resultado são frangos que podem ser
abatidos em média com 40 dias, enquanto que um frango caipira ou
orgânico precisa de 60 dias de vida antes do abate.
A criação desses
superfrangos acontece em galpões lotados, verdadeiros campos de
concentração onde as galinhas recebem doses cavalares de ração e
perambulam sobre as próprias fezes. Um prato cheio para a
proliferação de vírus e bactérias. Para evitar doenças, perda de
peso e a morte de animais, os produtores passaram a usar rações
aditivadas com antibióticos. Essas substâncias também são usadas
na alimentação de porcos e bois no Brasil e em vários outros
países.
Levantamento feito
pela veterinária Danielle de Moraes Gomes durante um curso sobre
alimentos na Universidade de Brasília (UnB) mostra que o consumo
de carnes com resíduos de Penicilina, Lincomicina, Tetraciclina,
Cloranfenical e Novobiocina pode causar danos à saúde humana.
Conforme o estudo, mesmo que as doses dessas substâncias sejam
reduzidas, podem surgir efeitos de longo prazo como alergias,
urticárias, asma, diarréias, inflamações, anemias e outros
sintomas.
O prejuízo mais
sério, conforme Danielle, é a “seleção de microorganismos”, que
se tornariam mais resistentes a medicamentos. O resultado seria
que crianças prematuras, idosos e portadores do vírus HIV, por
exemplo, possam necessitar de doses mais elevadas de remédios
graças ao consumo de carnes, leite ou ovos com traços de
antibióticos.
Para o veterinário
e sanitarista da Secretaria de Saúde do Paraná Sezefredo Paz, o
uso massivo de antibióticos é um efeito colateral do modelo de
produção adotado em todo o mundo. No Brasil o problema seria
mais grave pela falta de informações e de assistência técnica
aos criadores para uso correto das substâncias e também pelo
monopólio do Ministério da Agricultura na liberação desses
produtos. Segundo Paz, quando aquele ministério autoriza o uso
desses antibióticos não analisa questões de saúde pública. “A
legislação deveria ser como a dos agrotóxicos, que só podem ser
liberados com o aval conjunto dos ministérios da Saúde, do Meio
Ambiente e da Agricultura”, disse o consultor do Idec (Instituto
Brasileiro de Defesa do Consumidor), uma associação sem vínculos
com empresas ou governos.
No fim do ano
passado, como resultado de uma ação do Instituto junto ao
Ministério Público Federal, a Justiça determinou a retirada do
mercado nacional do carbadox. O produto era usado na alimentação
de porcos no Brasil, mas proibido na União Européia desde 1998.
Foram reconhecidas provas científicas dos perigos da substância,
reconhecida como cancerígena e mutagênica. O olaquindox,
semelhante ao carbadox, havia sido retirado do mercado ainda em
2004.
De acordo com o
advogado Paulo Pacini, do Idec, não há dúvida de que existem
resíduos de antibióticos nas carnes consumidas no País, mesmo
que nada conste nas embalagens desses produtos. “Acompanharemos
substância a substância para retirar do mercado aquelas
comprovadamente nocivas à saúde e para estimular um debate sobre
novas práticas de produção”, disse.
Quanto aos limites
máximos de resíduos de antibióticos e outras substâncias em
carnes de frangos, suínos e bovinos, o Brasil segue o Codex
Alimentarius, programa das Nações Unidas que define regras de
segurança para consumo de alimentos em todo o mundo. De acordo
com o Ministério da Agricultura e Anvisa (Agência Nacional de
Vigilância Sanitária), desde 1979 são monitorados resíduos e
contaminantes na produção de carnes, leite, ovos e peixes para
exportação e consumo interno.
Baseado nisso, o
veterinário João Palermo Neto, diretor da Faculdade de Medicina
Veterinária da USP e representante brasileiro no Codex, acredita
que não há motivo para preocupação porque a quantidade de
resíduos nas carnes de frango, suínos e bovinos está dentro do
limite recomendado pelas normas internacionais. “Essa quantidade
pode ser ingerida pelo ser humano durante toda a vida sem
qualquer problema”, disse. “Não há qualquer evidência científica
que ligue o uso de antibióticos na alimentação animal a doenças
humanas”.
Mesmo sem
comprovação técnica de prejuízos à saúde, como precaução a União
Européia suspendeu em janeiro deste ano a produção e a
importação de carnes com resíduos de antibióticos. A região
importa cerca de 14% da produção brasileira de frango. Conforme
Adauto Lima Rodrigues, coordenador de Resíduos e Contaminantes
da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da
Agricultura, os produtores brasileiros estariam se adaptando a
essa nova realidade e ao uso de novas substâncias desde outubro
do ano passado. Ele não descarta, no entanto, que as medidas
adotadas pelos europeus sejam protecionistas ou usadas “de forma
especulativa por aqueles que querem denegrir a produção
brasileira”.
Conforme o
coordenador, cada país tem condições climáticas, sistemas
produtivos e doenças diferentes, o que leva ao uso de certos
medicamentos em cada região. Para ele, possíveis efeitos na
saúde humana são “uma falácia”. “O que temos de garantir é que a
produção nacional tenha limites máximos de resíduos para aquelas
drogas que não sejam prejudiciais do ponto de vista de saúde
pública”, disse.
Possíveis
alternativas para os produtores são os chamados prebióticos e
probióticos. Essas substâncias manteriam a saúde dos animais e
não deixariam rastros na carne. No entanto, poderiam elevar os
custos de produção, como alega Ariel Antonio Mendes, professor
da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de
São Paulo (Unesp) e vice-presidente técnico da UBA (União
Brasileira de Avicultura). Fazem parte da diretoria e do
conselho da UBA empresas como Perdigão, Seara e Sadia.
No meio de todo
esse imbróglio, o consultor do Idec Sezefedo Paz afirma que é
necessária uma ampla discussão nacional sobre como são criados
frangos, suínos e bovinos no País para que, ao menos, sejam
adotadas “boas práticas” de produção. “Com maior higiene e
prevenção de doenças, o uso de antibióticos seria reduzido”,
disse. O veterinário também lembra que “há pouca pesquisa e
apoio” para o desenvolvimento de novos meios de produção. “O
Brasil só proíbe o uso de certas substâncias ‘no limite’, depois
de pressão social ou quando importadores exigem”, disse. “Também
há um número insuficiente de fiscais no apoio técnico,
laboratorial e na realização de análises e monitoramento dos
produtores”, completou Danielle Gomes.
Fonte:
Agência Envolverde |